Evolução do enfarte de miocárdio
A possível evolução de um determinado paciente após ter sofrido um enfarte de miocárdio é muito variável. Esta variabilidade é basicamente determinada por dois factores:
- Extensão do enfarte.
- Número e grau de obstrução das artérias coronárias afectadas.
Dependendo destes dois factores, há pacientes que recuperam rapidamente, enquanto outros apresentam complicações e mesmo risco de morte.
As primeiras duas horas após o início da dor são as mais perigosas, apresentando-se neste curto período de tempo a maior percentagem de mortes após enfarte de miocárdio. Do total de mortes, 60% produzem-se dentro das primeiras duas horas. Este dado destaca a importância de recorrer imediatamente a um centro médico especializado em caso de suspeita de um enfarte. Uma vantagem de chegar rapidamente ao hospital é poder-se ministrar um tratamento com trombolíticos (medicamentos dissolvendo os trombos ou coágulos) diminuindo a extensão do enfarte, sempre e quando administrados antes de 4-6 horas do início dos sintomas. Amplia-se o tema correspondente a trombolíticos no capítulo dedicado ao tratamento (veja-se pág. 95).
N os pacientes que sofreram um enfarte, o risco de sofrerem outro antes de cinco anos é de 13% nos homens e de 39% nas mulheres.
A mortalidade nos primeiros seis anos de aparição do primeiro oscila entre 20 e 71 % dependendo dos dois factores mencionados no início e da idade do paciente.
Evolução da angina de peito
Quanto à angina de peito, a mortalidade global por ano é de 4%. Neste caso o índice de mortalidade depende, sobretudo, do número de vasos ou artérias afectadas e da severidade das lesões obstrutivas. Também depende da força de contracção do miocárdio e da percentagem de sangue expulso pelo coração em cada pulsação. O cálculo aproximado pode realizar-se mediante dois métodos: a gamagrafia cardíaca e a ecocardiografia. Destes exames se falou no capítulo de métodos diagnósticos.
Na evolução da angina de peito, tal como na do enfarte, são importantes a idade do paciente e as alterações do ritmo cardíaco. Ainda que a história natural da angina de peito tenda a fazer-se progressivamente mais severa, em 15% de casos desaparece, talvez devido ao desenvolvimento de novos vasos sanguíneos levando o sangue aos territórios em risco: é o que se denomina circulação colateral.
Sintomas e sinais
A presença de uma angina de peito de longa evolução (mais de dois anos), os episódios de aparição de dor em repouso e a manutenção dos factores de risco de doença coronária num paciente com este distúrbio, indicam um mau prognóstico. A presença de insuficiência cardíaca, caracterizada principalmente por debilidade generalizada, dispneia (dificuldade em respirar) durante o repouso ou durante pequenos esforços e inchaço dos tornozelos, é outro factor de mau prognóstico.
Outro ponto crítico é a presença de alterações no electrocardiograma. O coração move-se graças a uns impulsos eléctricos circulando das aurículas para os ventrÍculos através de uns feixes nervosos, sendo os principais o ramo direito e o ramo esquerdo do chamado feixe de RIS. Quando se bloqueia o ramo esquerdo, os impulsos eléctricos movendo o coração vão-se atrasando e, portanto, o movimento é anómalo, pelo que também o é a imagem no electrocardiograma.
As pessoas que sofrem angina de peito aprendem rapidamente as características da sua dor e os factores que a desencadeiam. O objectivo do tratamento médico é aumentar o quadro de exercício fisico necessário para que a dor apareça (quer dizer, permitir que o paciente realize determinados esforços fisicos sem perigo, levando uma vida normal na medida do possível). O facto de a dor aparecer sempre aquando de uma quantidade determinada de exercício quer dizer que a angina é o que denominamos estável. Este tipo de angina responde rapidamente ao repouso e à administração de nitroglicerina sublingual, pelo que não se considera perigosa.
Quando num paciente sofrendo de angina de peito estável a dor aparece progressivamente a níveis de esforços menores num curto período de tempo e/ou aparece em repouso e não se acalma após este nem com a administração de nitroglicerina sublingual, diz-se então que a angina se transformou e evoluiu para instável. Este tipo de angina é muito perigoso tornando-se necessário recorrer o mais cedo possível a um centro médico. Caso se tenha sofrido um enfarte de miocárdio, o aparecimento de uma nova dor toráxica de origem coronária indica haver outros territórios do coração em risco de sofrerem enfarte. Portanto, e na dúvida de ser a dor de origem coronária ou não, deve recorrer-se a um centro médico.